Também Escutou Poesia
Cheguei por volta das duas da tarde, naquela hora em que o domingo já perdeu a pressa da manhã, mas guarda no corpo uma claridade generosa. E cheguei, por dessas coincidências que parecem ter sido escritas com letra de rio, justamente no comboio dos demais participantes. Não sei se era caravana, procissão literária ou romaria de afetos; sei apenas que todos pareciam seguir chamados por uma mesma voz antiga, larga e líquida: a voz do São Francisco.
Era um concurso de poesias com o tema “O Velho Chico". Fui jurado, ao lado de mais sete companheiros, e logo percebi que ali não se julgaria apenas métrica, rima, cadência ou força de imagem. Julgaríamos memórias. Julgaríamos devoções. Julgaríamos, com a delicadeza possível, a forma como cada poeta guardava dentro de si um pedaço daquele rio.
Na chegada, reencontrei muitas pessoas queridas, dessas que a vida nos empresta para que a memória não fique pobre. Não as citarei uma a uma, porque crônica não é ata de presença — e, convenhamos, se fosse, ainda assim eu correria o risco de esquecer alguém e transformar ternura em constrangimento. Basta dizer que havia ali muita gente estimada, e que os abraços tinham aquela força de reencontro que dispensa discurso.
As poesias vieram belas, tocantes, vivas. Em alguns momentos, tive a impressão de que o próprio Velho Chico se inclinava um pouco para ouvir melhor melhor. E, se rio falasse com voz humana, talvez dissesse: “Obrigado pela lembrança. Obrigado por esse afago, meus caros poetas.” Porque há rios que não querem apenas correr; querem ser lembrados. E o São Francisco, tão ferido e tão amado, naquele domingo recebeu não somente palavras, mas carinho público, desses que lavam a alma de quem escuta.
Socorro Mendonça, mãe de Edclécio, iniciou a apresentação com uma força matriarcal que atravessou os jurados como oração maternal. Sua voz tinha chão, tinha colo, tinha aquela autoridade doce das mulheres que sabem dizer sem precisar levantar o tom. Trouxe duas belas composições e, com elas, abriu a porteira da emoção.
Depois veio João de Souza, também se apresentando com bela poesia e presença. E ali começou o nosso pequeno sofrimento de jurados: como escolher, se cada concorrente parecia trazer uma parte essencial da festa? A missão, que à distância parecia simples, de perto se tornou quase uma travessia.
Em seguida, Socorro Araújo — que minha memória afetiva insiste em chamar de Marajana — brindou a todos com excelentes poesias. Há pessoas que, quando declamam, não apenas dizem versos: entregam paisagens. E ela entregou as suas com a segurança de quem conhece o valor da palavra e sabe que poesia boa não grita; permanece.
Então chegou Oscar Silva, o eterno ídolo das multidões de Paulo Afonso, homem da música, voz que encantou e encanta, gerações desde o Coliseu, presenteando a cidade com seu hino. Oscar trouxe duas poesias encantadoras e uma presença que carrega história. Quando ele fala, parece que uma parte da cidade se cala para escutar, talvez por gratidão, talvez por respeito, talvez porque certas vozes fazem parte da mobília sentimental de um povo.
Por último, veio Jorge — o homem dos livros na geladeira, ou algo assim, confesso que fiquei curioso e ainda hei de saber melhor essa história. Apresentou um belo cordel e revelou, sem aviso prévio, que a televisão brasileira está perdendo um excelente ator. A Globo, se soubesse, talvez mandasse um olheiro escondido entre as árvores. Jorge declamou com graça, presença e aquela teatralidade nordestina que não precisa de palco, porque transforma qualquer chão em cena.
E então veio a hora das notas.
Ah, as notas! Que tarefa ingrata é medir beleza e emoção com número. Todas as apresentações foram excelentes, e as pontuações ficaram próximas como canoas atracadas no mesmo porto. Não poderia ser diferente. Ao final, Jorge ficou em primeiro lugar, seguido por Socorro Mendonça e Oscar Silva. Mas, naquele tipo de encontro, a vitória maior não cabia em colocação. A vitória era ver a poesia acontecendo, viva, comunitária, abraçada pelo rio.
Depois, fomos todos para um delicioso chá com guloseimas, perto de um belo fogão à lenha. E há algo de profundamente brasileiro — talvez nordestino em sua essência mais afetuosa — em celebrar poesia com chá, café, bolo, conversa e calor de fogão. A literatura, ali, não estava distante em estantes difíceis; estava perto da mão, do riso, do guardanapo, da xícara, do açúcar, da memória.
Mas num encontro com imortais poetas, seria quase pecado ir embora sem visitar o pôr do sol. Seguimos ao mirante, e o entardecer fez o que os entardeceres do São Francisco sabem fazer: calou os excessos e ensinou contemplação. Depois veio a visita ao museu, sim, um museu — com peças belas e histórias que merecem olhos demorados. Porque um lugar que guarda objetos também guarda almas, e cada peça parecia dizer: “Antes de vocês chegarem, muita vida já passou por aqui.”
Na volta, às margens do Velho Chico, quando a noite já começava a vestir o mundo com seu azul mais profundo, fomos presenteados por belas canções na voz de Oscar Silva. E eu, tomado por aquela alegria tímida que às vezes nos prende justamente quando mais queremos pedir algo, fiquei com vontade de solicitar “Voo Livre”, uma de suas canções belas e famosas, que aprendi a gostar ainda na adolescência, quando comprei um disco de vinil dele. Não pedi. Perto de astros e estrelas daquele quilate, minha timidez fica pior. Há coragens que a gente só encontra depois, no caminho de casa, quando já não adianta mais.
Entre os momentos mais marcantes, guardo o reencontro com antigos professores. Logo no desembarque, avistei Jocelina, que foi vizinha, professora, diretora e orientadora do Grêmio Estudantil. Há pessoas que a gente encontra e, de repente, a juventude abre uma janela. Também revi Edson Barreto, professor de Língua Portuguesa, e Nery, que não foi meu professor por muito tempo, mas com quem, no colegial, fiz alguns trabalhos de arborização no BNH. Essas presenças me lembraram que ninguém chega inteiro a um domingo bonito sem ter sido antes formado por muitas mãos. Mãos habilidosas de mestres queridos.
E os trabalhos foram encerrados com muita emoção, numa oração seguida de saboroso jantar.
Foi, enfim, um domingo muito especial.
Especial pela Academia Pauloafonsina de Letras. Especial pela condução de João de Souza. Especial pela organização de Maciel Milenium. Especial pelos poetas, pelos jurados, pelo rio, pela sombra das árvores, pelo fogão à lenha, pelo museu, pelo pôr do sol, pelas canções e pelos reencontros. Especial até pelo pequeno vexame final: tomado pela emoção, fui embora sem pagar a conta. Confesso que quase morri de vergonha — mas, antes que a fama de caloteiro literário se espalhasse pelas margens do São Francisco, enviei o pix salvador.
Porque há domingos que terminam assim: com poesia no ouvido, rio na alma, gratidão no peito e uma conta paga às pressas, para que a memória fique limpa e a crônica possa rir de si mesma.
E talvez seja isso a felicidade: voltar para casa com a sensação de que, por algumas horas, o mundo foi mais bonito do que costuma ser.
Por: Luciano Júnior.

Postar um comentário