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sexta-feira, 13 de maio de 2022

Convém botarmos as barbas de molho (Por Roberto Amaral)



Às vésperas de um pleito que é, sem dúvida, o mais importante de quantos tivemos desde o fim da ditadura instaurada em 1º de abril de 1964 (regime de terror que nos atanazaria por 21 longos e doloridos anos), o país volta a ser inquietado pelo temor de um golpe de Estado. Essa ameaça, aliás, não é nova, pois é a marca do atual governo, desde seus primeiros dias perseguindo a construção de um regime autoritário. Por mais de uma vez, como no 7 de setembro do ano passado, o capitão esteve próximo de romper com a ordem institucional. Sempre com apoio de seus seguidores, permanentemente mobilizados, como nos regimes fascistas nos quais busca inspiração. No quadro presente, frustradas as maquinações anteriores, o ponto nevrálgico é o processo eleitoral. A extrema-direita teme perder as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva, que, líder nas pesquisas de intenção de voto em 2018, foi impedido de participar do processo eleitoral pela aliança do judiciário e do oligopólio da comunicação com o bolsonarismo emergente. Desta feita, candidato e eventualmente eleito, o “peixe barbudo”, na linguagem de Leonel Brizola, pode ter sua posse contestada mediante o questionamento da lisura das eleições.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

Em tempos do Inominável me falte até inspiração



São tantas notícias tristes nas páginas dos jornais, revistas, Blogs e Sites e até na Televisão que o sentimento de indignação com tudo o que acontece diariamente no Brasil foi me deixando sem emoções que justifiquem assombro ou algo parecido.

Eu nunca estive em um sanatório, mesmo que de passagem, mas pelo que já li sobre o que acontecia no passado e ocorre hoje em dia, me parece que estamos no que um dia definiu o poeta Chico Buarque em sua bela canção, “Bastidores”, “Num tempo página infeliz da nossa história. Passagem desbotada na memória das nossas novas gerações. Dormia a nossa pátria mãe tão distraídas sem perceber que era subtraída em tenebrosas transações”. E é assim que estamos sobrevivendo.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O preço da conciliação com os crimes da ditadura



Por ora, a defesa do arbítrio e da violência como ferramenta política tem ficado restrita a bolsonaristas-ostentação. Posam de fortões e fortinhos arrojados, quando na verdade sofrem de covardia social. O perigo de esses milicianos da palavra passarem à ação coletiva após as eleições é real. Convém, portanto, apressarmos nosso encontro marcado pela História ainda clandestina." (Dorrit Harazim, O Globo, 24/04/2022)

sexta-feira, 22 de abril de 2022

"As águas estão cor de chumbo, isso é prenúncio de tempestade"



O Decreto publicado ontem, pelo Presidente da República Jair Bolsonaro,  perdoando o Deputado Federal Daniel Silveira,  da condenação imposta  pelo Supremo Tribunal Federal é de enorme gravidade para a Democracia brasileira. É um desafio claro as normas institucionais vigentes, uma tentativa clara de humilhar e desmoralizar o STF, visto que constitucionalmente cabe ao STF dar a última palavra quando se estabelece conflitos entre os poderes. Pelo visto, o Presidente está testando até onde vai a solidez das instituições democráticas do país de forma muito mais contundente da que ocorreu no 7 de setembro do ano passado. E as instituições democráticas não podem vacilar.

domingo, 17 de abril de 2022

É urgente sepultar o bolsonarismo



A política é o encontro do desejável com o possível e o necessário (ou contingente). Nem sempre esses três elementos se dão as mãos. A boa ciência está em optar pelo melhor possível quando as condições são desfavoráveis.   Ou seja, fazer do limão uma limonada, sem, todavia, renunciar ao estratégico (o desejo), mas lutando sempre pela alteração da contingência.

É o exemplo que nos oferecem a luta e vida de Nelson Mandela, contrapostas à entrega voluntarista de Che Guevara. Nesta quadra brasileira, nenhum socialista pode, fora do delírio,  antever a possibilidade da revolução social, nosso leitmotiv.  Diante de nós, a realidade expõe os limites de uma peleja limitada à defesa da ordem democrático-burguesa que herdamos dos constituintes de 1988. Nem por isso podemos renunciar à politica, muito menos à luta estratégica, sonho ou utopia.

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Tribunal da UniZap condena mais um



Para entender o que acontece atualmente com a sociedade brasileira, e não há notícias que nos cheguem de que em outras regiões do globo terrestre esteja acontecendo o mesmo, a intolerância entre as pessoas no Brasil passou do nível do suportável para o de guerra de destruição em massa de reputações. E basta que uma frase seja dita por descuido e desagrade uma única pessoa para que essa transforme o corrido em uma tempestade de acusações.

Sabe aquela coisa de que “política e religião não se discute?” Pois agora, nada passa sem que a turma do UniZapa – Universidade do Whatsapp fique sem dar uma opinião. E não há espaço para o debate democrática, isso não acontece, o julgamento não admite defesa e vai direto a condenação.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

“Presidencialismo mitigado”: a nova face de um velho golpe (Por Roberto Amaral)



No Brasil, o parlamentarismo não é um sistema de governo, mas um instrumento de golpe de Estado, um desvio, uma pinguela de que a casa-grande lança mão sempre que supõe ver seu poder político ameaçado, seja por uma dissidência no bloco hegemônico, seja pela simples suspeição de emergência das massas, aquela ameaça tributada desde sempre ao trabalhismo de feição varguista, mas fruto do inevitável desenvolvimento do processo social que a direita, até aqui, não conseguiu congelar. 

Por todos os anos 50 e 60 do século passado, a capciosa emenda Raul Pilla, que instituía o parlamentarismo pela via congressual (em si um absurdo), esteve na ordem do dia do debate político, nas mãos da oposição golpista, apresentada e reapresentada em todas as legislaturas, arguida como alternativa institucional às crises que a própria reação promovia na incansável faina com vistas à desestabilização dos governos populares, como os de Vargas (1954), João Goulart (1964) e Dilma Rousseff (2016). A emenda seria vitoriosa em 1961, no auge da intentona militar que pretendia impedir a posse do vice-presidente constitucional, João Goulart, chamado ao posto em face da renúncia do presidente titular, Jânio da Silva Quadros. Antes, tentara impedir a posse de Juscelino Kubitscheck e Jango, eleitos em 1955. Uma dissidência militar impediu a consumação do golpe. O episódio ficou registrado como o “contragolpe de 11 de novembro”, ou simplesmente “novembrada”.

domingo, 20 de março de 2022

O doloroso parto de uma nova era (Por Roberto Amaral)



A debacle da União Soviética – simbolizando a vitória do capitalismo sobre as experiências do “socialismo real”– , deveria haver ensejado tanto o fim da Guerra Fria quanto a dissolução da OTAN, em face do esvaziamento do objetivo comum: o combate à "ameaça” comunista. Não foi, porém, o que se viu, quando a URSS, em 1991, não só renunciava, unilateralmente, ao comunismo, como se decompunha perdendo de saída, com a independência de várias de suas repúblicas, cerca de 40% de seu território. A antiga “sede do mal”, agora capitalista – porém um país capitalista pobre e exangue –, se oferecia ao Ocidente, que, vitorioso, tonitruava o fim da história. Soberbo, fez menoscabo da adesão do adversário derrotado. Reinava, desde Carter, a doutrina Brzezinski, que via a Eurásia, independentemente de sua quadra política, como um possível obstáculo ao domínio global dos EUA, que queriam incontestável, seja pelo adversário ideológico da Guerra Fria, seja por outra potência econômica capitalista que viesse a emergir.  Em 1991, no governo de George H.W. Bush, a “Orientação de política de defesa”, referindo-se ao mundo que se sucedia à queda do bloco comunista, afirmava que a prioridade estratégica dos EUA (isto é, da guerra), era impedir, no futuro, o surgimento de qualquer corrente global potencialmente ameaçadora da liderança de Washington. Paul Wolfowitz, subsecretário de Defesa, seu principal redator, esclarecia as preocupações do Pentágono, posto que a Rússia, mesmo capitalista e fragilizada, “continuaria sendo a potência militar mais forte da Eurásia”. Potência que, hoje, permanece como o segundo exército do mundo, dispondo, ademais, do maior acervo de ogivas nucleares do planeta, e se candidata à liderança de uma nova ordem mundial resultante do encontro da decadência do Império com a emergência da China como potência econômica, política e militar.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A Ucrânia e seus algozes (Por Roberto Amaral)



A geopolítica não é monocromática, e a peça que se escreve no teatro da guerra em curso (um território que compreende a Ucrânia, mas que se expande por metade do mundo) tem mais bandido do que mocinho, e uma só vítima: as populações civis, mortas ou desterradas. Por um imperativo moral, os socialistas não tergiversam na denúncia da invasão da Ucrânia, ao tempo em que se recusam a sancionar a política de guerra do Pentágono, nossa adversária tática e estratégica desde o fim da segunda guerra mundial.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Lições de um Patriota (Por Roberto Amaral)



Não sei com quantos estadistas o processo social contemplou nossa frágil república. Mas, principalmente na sequência dos anos 1930, dois nomes saltam à vista:  Getúlio Vargas e Leonel Brizola.  O primeiro inaugura o ciclo trabalhista; o segundo, encerrando-o, cede caminho para a emergência do lulismo, vertente que negara o varguismo, cadinho de todos os vícios do sindicalismo brasileiro, na conclusão primária da socialdemocracia paulista, que, no governo, prometeu “enterrar a era Vargas”.

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

Brasil: a independência por fazer (Por Roberto Amaral)



"O Brasil tem um enorme passado pela frente" - Millôr Fernandes

O novo ano coloca na ordem do dia as comemorações do bicentenário da Independência, e seu marco é o grito do 7 de setembro, mais relevante na tela de Pedro Américo do que na costura política do grande acordo que nos deu - sem revolução, sem alteração de mando ou de poder,  sem abalo de estrutura econômica ou social, mas ao preço de  transações e traficâncias - a maioridade política, por cujas artes a colônia é promovida a império, sem de fato conquistar a autonomia que caracteriza os estados independentes.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

O ciúme Matou Zé Grandão



Correu logo pela manhã daquele dia fatídico a informação de que mataram Zé Grandão. Encontraram seu corpo estendido no chão. O homem era bem afeiçoado e chamava muito bem a atenção de todos que o conhecia. Ele tinha uma preferência em fazer amizade com as mulheres. Bom de papo e contador de conversa tinha sempre alguém para escutá-lo.

Por essas e outras que Grandão recebia de sua esposa sempre o mesmo conselho.

- Zé tu tenhas cuidado com essa amizade com tantas mulheres, tu vai ficar mal falado e os maridos podem não gostar disso.

Mas ele sempre respondia.

terça-feira, 14 de dezembro de 2021

O jornalismo e seus teclados de aluguel



Não adianta cobrar isenção de nenhum órgão de imprensa no mundo e muito menos aqui no Brasil, todos têm um lado, mas só que por aqui a chamada grande imprensa sempre esteve ao lado do poder de direita e é uma das principais responsáveis pela eleição de um candidato de extrema-direita que ocupa hoje a presidência da república.

Que os proprietários dos grupos de comunicação tenham lá suas preferências nós podemos até entender, mas ver jornalistas servindo como se fossem a voz do dono para alugar seus teclados isto já não dá para aceitar como sendo algo normal.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Sobre as credenciais democráticas da velha imprensa (Por Roberto Amaral)



A grande  imprensa vive grave crise. O fenômeno não é novo, nem brasileiro; vem de décadas, refletido na permanente redução de páginas e queda das tiragens,  precedendo o encerramento das atividades de veículos impressos. Já não se cotam os que deixaram de circular.  O fenômeno atinge principalmente a imprensa gráfica, mas a ela não se restringe, pois alcança o rádio e a televisão - primeiro os canais abertos, e já agora os canais por assinatura.  Essa tendência foi agravada pelo estonteante desenvolvimento da internet e das chamadas redes, mas é anterior à sua emergência. No mundo todo há mais de 50 anos se observa a crise do setor, e o Brasil oferece campo para estudo de caso. A rede Tupi de televisão (tão ou mais poderosa quanto a Globo em seus grandes dias), teve a concessão cassada em 1980, após mais de dez anos de agonia exposta; avançava o processo de derruição dos “diários e rádios associados” de Chateaubriand, cadeia de revistas, editora de livros, emissoras de rádio e televisão e jornais cobrindo todo o território nacional, montada a partir de 1930 por métodos de um capitalismo jagunço que não resistiu à modernidade. A mesma inadequação estrutural levou de roldão o Jornal do Brasil, incapaz de enfrentar a concorrência predatória do sistema Globo. Outras redes de televisão, mais jovens, surgiram e desapareceram, como a Excelsior e a TV Rio. Outras, como a antiga Rede Record, de Paulo Machado de Carvalho, sobrevivem como palco eletrônico de uma seita religiosa-mercantil. Seguiu-se a concentração de canais e com ela o sistema de transmissão em cadeia, a última pá de cal na produção regional, já abalada desde a introdução do videoteipe.

domingo, 21 de novembro de 2021

O silêncio dos grandes meios à viagem de Lula à Europa é um escárnio (Por Roberto Amaral)



Toda sociedade que se preza (como EUA, Rússia, China e Cuba) tem sua própria visão de mundo, de que decorre a projeção e defesa  de seus interesses; são países  detentores daquilo que alguns chamam de “caráter nacional”, uma  autoidentidade definidora do papel que a nação soberana decide desempenhar no jogo dos blocos econômicos e militares. São  países que possuem  pauta própria, atores históricos assistidos por classes dominantes servidoras da sociedade e do projeto de país. Não é o caso brasileiro, como se vê. Nossas chamadas elites são forâneas e alienadas, descomprometidas com a construção de um projeto de país, reprodutoras dos valores e dos interesses da potência hegemônica. Falta-lhes tudo, mas falta-lhes principalmente o sentido de pertencimento a uma ordem comum. Não se identificam com o país, muito menos com seu povo. Essa elite aculturada nos governa em todos os campos da atividade humana: nos negócios, na política, nos partidos, num congresso desfibrado à mercê do centrão, num judiciário paquidérmico e classista, numa academia que não enxerga um palmo adiante do nariz, insensível ao Brasil real que tenta sobreviver do lado de fora de seus muros.

domingo, 14 de novembro de 2021

No Brasil o pobre passa fome e o rico ri à toa (Por Roberto Amaral)

Em meio à revolução tecnológica – alterando profundamente o caráter da sociedade moderna –, a humanidade vive a transição da hegemonia ocidental para a eurásia, anúncio do fim da atual ordem mundial. Se o desfecho é certo, o novo cenário é uma incógnita.

O Brasil, que perdeu a primeira revolução industrial (porque a casa-grande optou pela persistência de  uma arcaica sociedade agrário-exportadora fundada no latifúndio e no escravismo),  corre o risco de mais uma vez deixar passar vazio  o bonde da história; quando o mundo avança tão celeremente  no domínio de novas tecnologias, abrindo um leque  inimaginável de transformações políticas  e sociais, com a atividade econômica exigindo cada vez mais conhecimento científico e tecnológico, ou seja, mais escolaridade, o Brasil do capitão Bolsonaro, da burguesia financeira e dos engalanados que lhe dão sustento vira as costas para o ensino, a pesquisa e a inovação. Breve, o fosso tecnológico que já nos separa dos desenvolvidos – os países produtores de conhecimento –  será intransponível, condenando as futuras gerações a novas formas de subdesenvolvimento,  com seu contingente de fome e injustiça social.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O imponderável mundo novo (Por Roberto Amaral)



Sugeridos pela expectativa das próximas eleições – para muitos a possiblidade de mudança com a qual podemos contar –, partidos políticos e fundações as mais variadas, grupos sociais, entidades de classe e sindicatos se voltam para a formulação de planos e programas de governo. O ponto de referência é o quadro trágico de nossa realidade, que deita consequências para além dos  tristes dias de hoje. O concurso civil-militar governante desde 2016 não se satisfaz em destruir o presente do país e de seu povo – condenado à desesperança – e cuida mesmo de nos privar do futuro, mediante o combate sem tréguas ao conhecimento científico, atacando a educação e a cultura de um modo geral, mas concentrando seu poder de fogo o mais letal contra a universidade  pública, centro de produção de algo como 90% da pesquisa acadêmica, seja em ciências sociais, seja em ciências exatas. Universidade onde são formados nossos cientistas e pesquisadores, nossos mestres e doutores, nossos melhores especialistas; onde são cultivadas a ciência e a inovação, sem as quais  não há como cogitar de desenvolvimento, seja econômico, seja social. No mundo da revolução tecnológica, um continuum de avanços  encadeados,  assistimos de braços cruzados à destruição do sistema nacional de ciência e tecnologia. A universidade, porém,  conserva-se aquietada sob o peso de seus interesses corporativos. O que espera para pôr-se de pé? O milagre da fênix? Diante do criminoso projeto do bolsonarismo permanece silente o empresariado industrial, como se esse desastre não lhe dissesse respeito, como se fosse possível pensar em indústria sem desenvolvimento científico-tecnológico. Comprometidas com esse desastre, estão as forças  armadas brasileiras,  como se fosse possível pensar em defesa sem indústria nacional. E se o país não tem como defender-se, como justificar  o custeio de uma estrutura tão cara? Por outro lado, em festa está  o complexo agrário-exportador, exportando minério bruto enquanto o país importa trilhos, exportando matéria-prima para importar produtos manufaturados, exportando soja e milho in natura e proteína animal quando mais da metade da população do país  vive em condições de insegurança alimentar. Ignora o papel da Embrapa no aumento da produtividade agrícola brasileira, e observa com indiferença o desmonte da pesquisa que alicerçou seus lucros. Como na colônia e no império, vive a economia do país, em pleno terceiro milênio, em função das bolsas de commodities, mirando Walt Street para saber a quanto anda a desvalorização de nossa moeda, aumentando juros para combater uma inflação estrutural. Como se fosse um destino irremovível viver na periferia do capitalismo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O atraso da classe dominante brasileira (Por Roberto Amaral)



“Por que o Brasil ainda não deu certo?” perguntava-se Darcy Ribeiro, político,  antropólogo, ensaísta, conferencista e romancista, homem de grandes paixões,  certamente o mais inquieto dos pensadores  brasileiros do século passado, e, sem dúvida alguma, um dos mais profícuos e desassombrados intelectuais-militantes que já tivemos. No seu estimulante O povo brasileiro, que começou a escrever no exílio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, é formulada noutros termos, mais avançados, quando se indaga: “Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?” (referia-se à vitória do golpe de 1964). Mas então, como se vê, a própria pergunta já trazia consigo a resposta, na indicação de nossa tragédia histórica como resultado do controle do poder por uma gente medíocre, perversa, anti-nacional, alienada e forânea. Gente muito bem representada, aliás, pelos comensais do regabofe na mansão do especulador Naji Nahas, responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empresários, jornalistas, políticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as ameaças de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capitão Bolsonaro a inviabilização do impeachment e a impunidade de seus filhos. Fora o que não se conhece. Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observação de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escrivão o inefável ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experiência nas Docas de Santos.

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

O governo, que já devastou nosso presente, trata de nos negar a chance de futuro. (Por Roberto Amaral)



Robert Oppenheimer  é reconhecidamente um dos mais renomados físicos do século passado. Prêmio Enrico Fermi  de 1963, dirigiu o Projeto Manhattan para o desenvolvimento da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial, no Laboratório Nacional de Los Alamos, no Novo México. No auge de seu prestígio internacional esteve em nosso país, e no Rio de Janeiro, no dia 23 de julho, pronunciou uma conferência da qual Renato Archer, futuro ministro da ciência e tecnologia (1985-1987) colheu a seguinte afirmação: “Se eu tivesse visitado o Brasil há três anos e me fosse dado percorrer o mesmo itinerário [centros científicos do Rio, São Paulo e Minas Gerais, em cinco semanas] teria vindo aos senhores  para lhes implorar que criassem um Conselho Nacional de Pesquisas idêntico ao que ora existe” (cf. FILHO, Alvaro Rocha. Renato Archer – Depoimento. Contraponto, 2006, p. 64).

sábado, 2 de outubro de 2021

Brasil: as desventuras do gigante ensimesmado (Por Roberto Amaral)


Embora aberto ao mundo como uma feitoria agroexportadora de produtos tropicais demandados pela Europa (de início o pau de tinta que lhe deu o nome, índios apresados, papagaios e peles e, depois e por largo tempo, açúcar, algodão, ouro, prata etc.), e assim tendo crescido e se consolidado no Império (como na colônia, ainda exportador de produtos primários), o Brasil carregaria consigo o complexo do ensimesmamento. Indicadores  dessa alienação foram registrados já nos primeiros anos do século 19 por Thomas Lindsey, o primeiro aventureiro inglês a deixar depoimento sobre nosso país. Por aqui zanzou uns dois anos, entre a Bahia e, suspeita-se, uma ou outra viagem ao Rio, sempre às voltas com as autoridades reinóis que o acusavam de contrabandista. Viu nossa gente dominada pelo sentimento da autossuficiência, e inteiramente desinteressada  do mundo. Registrou: “[...] E quanto a informações de brasileiros, estavam inteiramente fora de cogitações, porquanto nunca encontrei um povo tão estupidamente destituído de curiosidade. Só conhece os  fatos mais notórios, como, talvez, os relativos à paz e à guerra."  [Narrativa de uma viagem ao Brasil. Londres, 1805 (São Paulo, 1969). Companhia Editora Nacional, p. 76.