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sexta-feira, 13 de maio de 2022

Convém botarmos as barbas de molho (Por Roberto Amaral)



Às vésperas de um pleito que é, sem dúvida, o mais importante de quantos tivemos desde o fim da ditadura instaurada em 1º de abril de 1964 (regime de terror que nos atanazaria por 21 longos e doloridos anos), o país volta a ser inquietado pelo temor de um golpe de Estado. Essa ameaça, aliás, não é nova, pois é a marca do atual governo, desde seus primeiros dias perseguindo a construção de um regime autoritário. Por mais de uma vez, como no 7 de setembro do ano passado, o capitão esteve próximo de romper com a ordem institucional. Sempre com apoio de seus seguidores, permanentemente mobilizados, como nos regimes fascistas nos quais busca inspiração. No quadro presente, frustradas as maquinações anteriores, o ponto nevrálgico é o processo eleitoral. A extrema-direita teme perder as eleições para Luiz Inácio Lula da Silva, que, líder nas pesquisas de intenção de voto em 2018, foi impedido de participar do processo eleitoral pela aliança do judiciário e do oligopólio da comunicação com o bolsonarismo emergente. Desta feita, candidato e eventualmente eleito, o “peixe barbudo”, na linguagem de Leonel Brizola, pode ter sua posse contestada mediante o questionamento da lisura das eleições.

domingo, 8 de maio de 2022

Sobre um campo de tortura na Base Aérea de Natal



O inventário dos crimes contra a vida e a dignidade humanas cometidos por oficiais das  forças armadas brasileiras no curso das duas últimas ditaduras, o Estado Novo (1937-1945), e o mandarinato de 1964-1985, pode sugerir que as prisões arbitrárias, as torturas e os assassinatos são crimes militares restritos aos anos de terror.  A ignomínia, porém, muito cedo sentou praça em nossas fileiras. As insurreições, levantes e insurgências populares que palmilham nossa história, da Colônia à República, foram reprimidas com extrema violência. O único levante vitorioso foi a “revolução” de 1930 – um dissídio da classe dominante levado a cabo por três governadores de Estado e meia dúzia de oficiais superiores, que não conheceu resistência ou enfrentamento no longo passeio de trem que trouxe Getúlio Vargas e seu estado-maior do Palácio Piratini ao Catete, no Rio de Janeiro. As “pacificações” do Império, que com tantos títulos ornaram o Duque de Caxias, foram levadas a cabo a ferro e fogo. A guerra do Paraguai não pode afagar nossos brios, quando as tropas brasileiras terminaram lutando contra adolescentes, mulheres  e idosos. Muito menos nos honra o massacre, nos primeiros anos da república,  (de algo como 20 mil sertanejos famélicos reunidos no Arraial de Canudos por Antônio Conselheiro, assim registrado por Euclides da Cunha n'Os sertões:

“Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados.”

quarta-feira, 4 de maio de 2022

O preço da conciliação com os crimes da ditadura



Por ora, a defesa do arbítrio e da violência como ferramenta política tem ficado restrita a bolsonaristas-ostentação. Posam de fortões e fortinhos arrojados, quando na verdade sofrem de covardia social. O perigo de esses milicianos da palavra passarem à ação coletiva após as eleições é real. Convém, portanto, apressarmos nosso encontro marcado pela História ainda clandestina." (Dorrit Harazim, O Globo, 24/04/2022)

domingo, 17 de abril de 2022

É urgente sepultar o bolsonarismo



A política é o encontro do desejável com o possível e o necessário (ou contingente). Nem sempre esses três elementos se dão as mãos. A boa ciência está em optar pelo melhor possível quando as condições são desfavoráveis.   Ou seja, fazer do limão uma limonada, sem, todavia, renunciar ao estratégico (o desejo), mas lutando sempre pela alteração da contingência.

É o exemplo que nos oferecem a luta e vida de Nelson Mandela, contrapostas à entrega voluntarista de Che Guevara. Nesta quadra brasileira, nenhum socialista pode, fora do delírio,  antever a possibilidade da revolução social, nosso leitmotiv.  Diante de nós, a realidade expõe os limites de uma peleja limitada à defesa da ordem democrático-burguesa que herdamos dos constituintes de 1988. Nem por isso podemos renunciar à politica, muito menos à luta estratégica, sonho ou utopia.

sexta-feira, 1 de abril de 2022

“Presidencialismo mitigado”: a nova face de um velho golpe (Por Roberto Amaral)



No Brasil, o parlamentarismo não é um sistema de governo, mas um instrumento de golpe de Estado, um desvio, uma pinguela de que a casa-grande lança mão sempre que supõe ver seu poder político ameaçado, seja por uma dissidência no bloco hegemônico, seja pela simples suspeição de emergência das massas, aquela ameaça tributada desde sempre ao trabalhismo de feição varguista, mas fruto do inevitável desenvolvimento do processo social que a direita, até aqui, não conseguiu congelar. 

Por todos os anos 50 e 60 do século passado, a capciosa emenda Raul Pilla, que instituía o parlamentarismo pela via congressual (em si um absurdo), esteve na ordem do dia do debate político, nas mãos da oposição golpista, apresentada e reapresentada em todas as legislaturas, arguida como alternativa institucional às crises que a própria reação promovia na incansável faina com vistas à desestabilização dos governos populares, como os de Vargas (1954), João Goulart (1964) e Dilma Rousseff (2016). A emenda seria vitoriosa em 1961, no auge da intentona militar que pretendia impedir a posse do vice-presidente constitucional, João Goulart, chamado ao posto em face da renúncia do presidente titular, Jânio da Silva Quadros. Antes, tentara impedir a posse de Juscelino Kubitscheck e Jango, eleitos em 1955. Uma dissidência militar impediu a consumação do golpe. O episódio ficou registrado como o “contragolpe de 11 de novembro”, ou simplesmente “novembrada”.

domingo, 20 de março de 2022

O doloroso parto de uma nova era (Por Roberto Amaral)



A debacle da União Soviética – simbolizando a vitória do capitalismo sobre as experiências do “socialismo real”– , deveria haver ensejado tanto o fim da Guerra Fria quanto a dissolução da OTAN, em face do esvaziamento do objetivo comum: o combate à "ameaça” comunista. Não foi, porém, o que se viu, quando a URSS, em 1991, não só renunciava, unilateralmente, ao comunismo, como se decompunha perdendo de saída, com a independência de várias de suas repúblicas, cerca de 40% de seu território. A antiga “sede do mal”, agora capitalista – porém um país capitalista pobre e exangue –, se oferecia ao Ocidente, que, vitorioso, tonitruava o fim da história. Soberbo, fez menoscabo da adesão do adversário derrotado. Reinava, desde Carter, a doutrina Brzezinski, que via a Eurásia, independentemente de sua quadra política, como um possível obstáculo ao domínio global dos EUA, que queriam incontestável, seja pelo adversário ideológico da Guerra Fria, seja por outra potência econômica capitalista que viesse a emergir.  Em 1991, no governo de George H.W. Bush, a “Orientação de política de defesa”, referindo-se ao mundo que se sucedia à queda do bloco comunista, afirmava que a prioridade estratégica dos EUA (isto é, da guerra), era impedir, no futuro, o surgimento de qualquer corrente global potencialmente ameaçadora da liderança de Washington. Paul Wolfowitz, subsecretário de Defesa, seu principal redator, esclarecia as preocupações do Pentágono, posto que a Rússia, mesmo capitalista e fragilizada, “continuaria sendo a potência militar mais forte da Eurásia”. Potência que, hoje, permanece como o segundo exército do mundo, dispondo, ademais, do maior acervo de ogivas nucleares do planeta, e se candidata à liderança de uma nova ordem mundial resultante do encontro da decadência do Império com a emergência da China como potência econômica, política e militar.

sexta-feira, 4 de março de 2022

A Ucrânia e seus algozes (Por Roberto Amaral)



A geopolítica não é monocromática, e a peça que se escreve no teatro da guerra em curso (um território que compreende a Ucrânia, mas que se expande por metade do mundo) tem mais bandido do que mocinho, e uma só vítima: as populações civis, mortas ou desterradas. Por um imperativo moral, os socialistas não tergiversam na denúncia da invasão da Ucrânia, ao tempo em que se recusam a sancionar a política de guerra do Pentágono, nossa adversária tática e estratégica desde o fim da segunda guerra mundial.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Lições de um Patriota (Por Roberto Amaral)



Não sei com quantos estadistas o processo social contemplou nossa frágil república. Mas, principalmente na sequência dos anos 1930, dois nomes saltam à vista:  Getúlio Vargas e Leonel Brizola.  O primeiro inaugura o ciclo trabalhista; o segundo, encerrando-o, cede caminho para a emergência do lulismo, vertente que negara o varguismo, cadinho de todos os vícios do sindicalismo brasileiro, na conclusão primária da socialdemocracia paulista, que, no governo, prometeu “enterrar a era Vargas”.

domingo, 21 de novembro de 2021

O silêncio dos grandes meios à viagem de Lula à Europa é um escárnio (Por Roberto Amaral)



Toda sociedade que se preza (como EUA, Rússia, China e Cuba) tem sua própria visão de mundo, de que decorre a projeção e defesa  de seus interesses; são países  detentores daquilo que alguns chamam de “caráter nacional”, uma  autoidentidade definidora do papel que a nação soberana decide desempenhar no jogo dos blocos econômicos e militares. São  países que possuem  pauta própria, atores históricos assistidos por classes dominantes servidoras da sociedade e do projeto de país. Não é o caso brasileiro, como se vê. Nossas chamadas elites são forâneas e alienadas, descomprometidas com a construção de um projeto de país, reprodutoras dos valores e dos interesses da potência hegemônica. Falta-lhes tudo, mas falta-lhes principalmente o sentido de pertencimento a uma ordem comum. Não se identificam com o país, muito menos com seu povo. Essa elite aculturada nos governa em todos os campos da atividade humana: nos negócios, na política, nos partidos, num congresso desfibrado à mercê do centrão, num judiciário paquidérmico e classista, numa academia que não enxerga um palmo adiante do nariz, insensível ao Brasil real que tenta sobreviver do lado de fora de seus muros.

domingo, 14 de novembro de 2021

No Brasil o pobre passa fome e o rico ri à toa (Por Roberto Amaral)

Em meio à revolução tecnológica – alterando profundamente o caráter da sociedade moderna –, a humanidade vive a transição da hegemonia ocidental para a eurásia, anúncio do fim da atual ordem mundial. Se o desfecho é certo, o novo cenário é uma incógnita.

O Brasil, que perdeu a primeira revolução industrial (porque a casa-grande optou pela persistência de  uma arcaica sociedade agrário-exportadora fundada no latifúndio e no escravismo),  corre o risco de mais uma vez deixar passar vazio  o bonde da história; quando o mundo avança tão celeremente  no domínio de novas tecnologias, abrindo um leque  inimaginável de transformações políticas  e sociais, com a atividade econômica exigindo cada vez mais conhecimento científico e tecnológico, ou seja, mais escolaridade, o Brasil do capitão Bolsonaro, da burguesia financeira e dos engalanados que lhe dão sustento vira as costas para o ensino, a pesquisa e a inovação. Breve, o fosso tecnológico que já nos separa dos desenvolvidos – os países produtores de conhecimento –  será intransponível, condenando as futuras gerações a novas formas de subdesenvolvimento,  com seu contingente de fome e injustiça social.

segunda-feira, 8 de novembro de 2021

O imponderável mundo novo (Por Roberto Amaral)



Sugeridos pela expectativa das próximas eleições – para muitos a possiblidade de mudança com a qual podemos contar –, partidos políticos e fundações as mais variadas, grupos sociais, entidades de classe e sindicatos se voltam para a formulação de planos e programas de governo. O ponto de referência é o quadro trágico de nossa realidade, que deita consequências para além dos  tristes dias de hoje. O concurso civil-militar governante desde 2016 não se satisfaz em destruir o presente do país e de seu povo – condenado à desesperança – e cuida mesmo de nos privar do futuro, mediante o combate sem tréguas ao conhecimento científico, atacando a educação e a cultura de um modo geral, mas concentrando seu poder de fogo o mais letal contra a universidade  pública, centro de produção de algo como 90% da pesquisa acadêmica, seja em ciências sociais, seja em ciências exatas. Universidade onde são formados nossos cientistas e pesquisadores, nossos mestres e doutores, nossos melhores especialistas; onde são cultivadas a ciência e a inovação, sem as quais  não há como cogitar de desenvolvimento, seja econômico, seja social. No mundo da revolução tecnológica, um continuum de avanços  encadeados,  assistimos de braços cruzados à destruição do sistema nacional de ciência e tecnologia. A universidade, porém,  conserva-se aquietada sob o peso de seus interesses corporativos. O que espera para pôr-se de pé? O milagre da fênix? Diante do criminoso projeto do bolsonarismo permanece silente o empresariado industrial, como se esse desastre não lhe dissesse respeito, como se fosse possível pensar em indústria sem desenvolvimento científico-tecnológico. Comprometidas com esse desastre, estão as forças  armadas brasileiras,  como se fosse possível pensar em defesa sem indústria nacional. E se o país não tem como defender-se, como justificar  o custeio de uma estrutura tão cara? Por outro lado, em festa está  o complexo agrário-exportador, exportando minério bruto enquanto o país importa trilhos, exportando matéria-prima para importar produtos manufaturados, exportando soja e milho in natura e proteína animal quando mais da metade da população do país  vive em condições de insegurança alimentar. Ignora o papel da Embrapa no aumento da produtividade agrícola brasileira, e observa com indiferença o desmonte da pesquisa que alicerçou seus lucros. Como na colônia e no império, vive a economia do país, em pleno terceiro milênio, em função das bolsas de commodities, mirando Walt Street para saber a quanto anda a desvalorização de nossa moeda, aumentando juros para combater uma inflação estrutural. Como se fosse um destino irremovível viver na periferia do capitalismo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2021

O atraso da classe dominante brasileira (Por Roberto Amaral)



“Por que o Brasil ainda não deu certo?” perguntava-se Darcy Ribeiro, político,  antropólogo, ensaísta, conferencista e romancista, homem de grandes paixões,  certamente o mais inquieto dos pensadores  brasileiros do século passado, e, sem dúvida alguma, um dos mais profícuos e desassombrados intelectuais-militantes que já tivemos. No seu estimulante O povo brasileiro, que começou a escrever no exílio do Uruguai, aquela pergunta, a cuja busca de resposta dedica sua obra madura, é formulada noutros termos, mais avançados, quando se indaga: “Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?” (referia-se à vitória do golpe de 1964). Mas então, como se vê, a própria pergunta já trazia consigo a resposta, na indicação de nossa tragédia histórica como resultado do controle do poder por uma gente medíocre, perversa, anti-nacional, alienada e forânea. Gente muito bem representada, aliás, pelos comensais do regabofe na mansão do especulador Naji Nahas, responsável pela quebra da Bolsa de Valores do Rio de Janeiro, com o qual a casa-grande com seus procuradores (empresários, jornalistas, políticos, advogados) comemorou o acordo inter-elite que, a pretexto de afastar as ameaças de golpe iminente, anunciado no dia 7 de setembro, assegurou ao capitão Bolsonaro a inviabilização do impeachment e a impunidade de seus filhos. Fora o que não se conhece. Como sempre, os acordos se amarram no andar de cima da hierarquia mandante para observação de todo o povo; desta vez o pacto foi traficado com militares, parlamentares e ministros do STF, tendo como costureiro e escrivão o inefável ex-presidente Michel Temer, advogado com vasta experiência nas Docas de Santos.

quinta-feira, 26 de agosto de 2021

A República aos pés de seus subordinados (Por Roberto Amaral)



“Sem consenso em torno da divulgação de uma nota contra as ameaças feitas por Jair Bolsonaro à democracia, governadores de 24 Estados e do Distrito Federal decidiram ontem propor ao presidente e a outros chefes de Poderes uma espécie de reunião de pacificação e de normalização institucional do País” (O Estado de S. Paulo, 24/08/2021)

A república vive sua maior crise desde o final da ditadura de 1964. Para muitos analistas o desassossego tem nome e sobrenome: Jair Messias Bolsonaro. Seria simples e prático  reduzir assim o desafio, mas estaríamos simplesmente tomando a aparência pela realidade,  pois o problema tem outra identidade, e por isso mesmo é mais grave: as forças armadas brasileiras, responsáveis pelos graves momentos de desestabilização democrático-institucional que caracterizam a história republicana. Elas respondem pelo projeto de poder que culminou com as eleições de 2018, levadas a cabo com os resultados que alcançaram  graças ao emprego de modos e meios não republicanos, aos quais não estiveram alheios os fardados. E são ainda elas que emprestam sustentação ao atual regime, assumidamente lesa-pátria, que em tão pouco tempo está destruindo nossa soberania e condenando a maioria da população à pobreza: 14,8 milhões de desempregados, 30 milhões de brasileiros na informalidade, 19 milhões passando fome. Em poucos dias somaremos 600 mil vítimas fatais da Covid, contingente superior a todas as nossas perdas na guerra da Cisplatina (na qual o exército brasileiro foi fragorosamente derrotado), na guerra do Paraguai e na Segunda Guerra Mundial. A calamidade sanitária é o tonitruante certificado da incompetência dos militares, gestores diretos da política de saúde, e do descaso (para dizer o mínimo) do capitão. Sua atuação em áreas cruciais como educação, cultura, meio ambiente e ciência e tecnologia vai além da inépcia; sugere o propósito destrutivo do país.

Não se discute mais o processo eleitoral de 2018, que verdadeiramente começa com o golpe de 2016, a deposição de Dilma e a posse de Michel Temer, o perjuro: a mobilização dos quartéis como comitês do candidato verde-oliva, a politização das forças de segurança pública, as manobras ilícitas da Lava Jato, a condenação de Lula e seu linchamento político pelos grandes meios de comunicação, o tweet do general Villas Bôas acossando o STF, e o muito mais ou menos conhecido mas que aguarda tempo para ser revelado.

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Um estadista da República submissa (Roberto Amaral)


Debruçado sobre nossa aventura entre o fim da Segunda Guerra Mundial e o término da Guerra Fria, com o suicídio da URSS, Renato Archer deita luzes sobre a intimidade da república que frequentou como ator privilegiado (Depoimento Ed. Contraponto, 2006). É didático, por exemplo, no desvendar o  papel de diplomatas e militares na política,  e disserta sobre a adesão acrítica dos fardados, como corporação, aos projetos geopolíticos dos EUA, em detrimento dos nossos interesses como povo, nação e país. Trata-se, pois, de livro precioso cuja leitura ajuda a compreender a tragédia política de nossos dias. 

Militar de carreira (foi capitão para a reserva como de fragata), secretário de governo no Maranhão, empresário, deputado federal, ministro das relações exteriores, adversário da ditadura, articulador da frente ampla (Juscelino, João Goulart e Carlos Lacerda, 1966), ministro da ciência e tecnologia no governo da nova república, ministro da previdência social, presidente da Embratel, típico filho da casa-grande, Renato Archer assume o papel de dissidente oligárquico, e se faz político na contramão dos interesses de sua origem de classe. Prócer de destaque no movimento nacionalista dos anos 50/60 do século passado, foi cassado e preso pela ditadura de seus pares.  

Destaco seu papel como colaborador de San Tiago Dantas na estruturação dos primeiros marcos de uma política externa que visava à independência, e sua longa defesa (seguindo os passos de Álvaro Alberto) do desenvolvimento da energia nuclear para a produção de energia elétrica, projeto  sabotado pelo marechal Juarez Távora, quando chefe da Casa Militar de Café Filho (1955). O destrinchar das maquinações marcou a atuação parlamentar de Renato Archer e constitui um dos capítulos de maior revelação histórica de seu Depoimento, ditado de extrema coragem em país que mais aprecia as acomodações (pp 115 e segts). De sua denúncia resultou uma CPI na Câmara dos Deputados cujas conclusões resultaram pouco lisonjeiras ao velho cabo de guerra compelido a requerer a reserva, que nos anos vinte do século passado  lustrara  a farda com a condecoração do lenço vermelho dos revolucionários.