Eu definitivamente sou daquelas pessoas que tiveram o
privilégio de ver os costumes mudarem diante dos próprios olhos. Sou do tempo,
e continuo sendo, em que se pede a bênção e se dá a bênção todos os dias,
sempre que encontro alguém a quem devo me dirigir dessa forma.
É verdade que meus tios, minhas tias, meu padrinho e minha madrinha já estão, aos poucos, partindo desta vida. Assim espero que seja, para uma vida melhor. Mas continuo fiel ao respeito que aprendi a ter por cada pessoa. Até os últimos dias dos meus pais, eu lhes pedia bençãos.
Também acompanhei, pelas novelas e pelos filmes, as mudanças
no comportamento da sociedade, especialmente entre os mais jovens. Eu mesmo
atualizei algumas maneiras de agir e de pensar. Afinal, o tempo passa para
todos. Mas nunca permiti que essas mudanças levassem embora aquilo que
considero essencial, o respeito pelas pessoas.
Na semana passada, procurando um filme para assistir,
encontrei uma série sobre Maria, mãe de Jesus Cristo. É um tema que sempre
desperta meu interesse. Gosto de observar como o roteirista interpreta os
fatos, como o diretor conduz a narrativa e como os tradutores conseguem
transportar o texto original para que os dubladores transmitam toda a emoção da
obra.
Foi então que algo me chamou a atenção.
Assim como acontece em muitas novelas atuais, os filhos já
não pedem mais a bênção aos pais. Chamam-nos simplesmente de "você".
A palavra "senhor", que durante tanto tempo representou respeito e
consideração, parece ter desaparecido dos diálogos.
Mas o que realmente me incomodou foi uma cena da série.
Anos depois da morte de Jesus, Pedro, o apóstolo, encontra
Maria e se dirige a ela dizendo apenas "você". Não
"senhora". Apenas "você".
Naquele instante, peguei o controle remoto, pausei a imagem
e fiquei pensando.
Será mesmo que, naquela época, um apóstolo, ou qualquer
outra pessoa, teria tratado Maria dessa maneira? Será que uma mulher
reconhecida por todos como a mãe de Jesus receberia um tratamento tão informal?
Não encontrei resposta.
Desliguei a televisão.
E fiquei apenas com aquele incômodo que, às vezes, parece
pequeno, mas diz muito sobre o tempo em que vivemos.
Talvez não seja apenas uma palavra que desapareceu dos
roteiros. Talvez tenha ido embora, junto com ela, uma forma de demonstrar
respeito. E isso, repetido em novelas, filmes e livros, acaba influenciando,
pouco a pouco, a maneira como as pessoas falam, se relacionam e enxergam umas
às outras.
É claro que cada autor deve ter a liberdade de escrever como
desejar. A literatura, o cinema e a televisão precisam dessa liberdade para
existir.
Mas também é bom que continuemos encontrando escritores que
ainda falem a língua do povo. Não apenas a língua que se ouve nas ruas, mas
aquela que carrega memória, afeto e educação.
Porque há palavras que são apenas palavras.
E há outras que, quando desaparecem, levam junto um pedaço
da nossa história, da nossa existência.
Dimas Roque – Cronista, Contista e Jornalista.

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