O Senado aprovou nesta semana a utilização de recursos do pré-sal para o pagamento de dívidas do agronegócio. A decisão, que movimenta bilhões, foi celebrada por representantes do setor rural, mas levantou críticas imediatas de especialistas e movimentos sociais. O argumento oficial é de que o agro precisa de fôlego financeiro para manter a produção e garantir exportações, mas a medida reacende uma memória incômoda, quando o Congresso Nacional vetou o uso do mesmo pré-sal para financiar a saúde pública.
Em 2013, durante o governo Dilma Rousseff, havia sido
proposta a destinação de parte dos royalties do pré-sal para a saúde e a
educação. A ideia era transformar a riqueza do petróleo em investimento direto
em áreas essenciais para a população. No entanto, após intensos debates, o
Congresso barrou a maior parte da proposta, deixando a saúde de fora da
partilha. O resultado foi a manutenção de um sistema de saúde subfinanciado,
que até hoje sofre com falta de recursos, filas intermináveis e hospitais em colapso.
Agora, mais de uma década depois, o mesmo Congresso abre as
portas para que o dinheiro do pré-sal seja usado em favor do agronegócio. A
contradição é evidente, quando se trata de salvar vidas, o argumento é de que
não há orçamento; quando se trata de salvar dívidas de grandes produtores
rurais, o caixa se abre sem pudor. Essa escolha escancara a prioridade política
de quem legisla, atender aos setores mais poderosos e organizados, enquanto a
população continua à mercê de um sistema de saúde precário.
A decisão do Senado expõe um Brasil desigual, onde o
petróleo não financia hospitais, mas serve para bancar dívidas milionárias de
fazendeiros. O contraste entre o veto histórico à saúde e a aprovação atual
para o agro é um retrato cruel da política nacional. O pré-sal, que poderia ser
símbolo de desenvolvimento social, virou moeda de troca para interesses
econômicos. E a pergunta que ecoa é direta, até quando o Congresso vai preferir
salvar bois em vez de salvar vidas?

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