A invasão dos estrangeiros no São João Nordestino e levam o dinheiro



Não é de hoje que venho chamando atenção para a descaracterização da festa junina no Nordeste brasileiro. Anos atrás escrevi um artigo pedindo, “Quero o meu São João de volta”. Desde então, a cada nova edição, cresce a invasão de artistas e bandas que nada têm de forró ou da nossa cultura, relegando a tradição nordestina ao esquecimento e transformando o São João em um espetáculo genérico.

No passado, o São João era sinônimo de zabumba, triângulo e sanfona. Era Luiz Gonzaga cantando o sertão, Dominguinhos emocionando multidões, Jackson do Pandeiro trazendo irreverência e ritmo. Hoje, em muitos palcos, esses sons foram substituídos por estilos que nada dialogam com a essência da festa. O resultado é um São João sem alma, onde o forró pé-de-serra cede espaço a artistas que sequer sabem diferenciar canjica de curau.

Os “estrangeiros”, sertajejos, se apresentam por toda parte, nas capitais, onde há grandes públicos e muito dinheiro, e também em cidades menores, onde as prefeituras mal conseguem pagar salários de funcionários, mas milagrosamente encontram recursos para bancar cachês estratosféricos. Muitas vezes, esses pagamentos vêm de emendas parlamentares direcionadas como se esses artistas fossem imãs de arrecadação, enquanto músicos locais sobrevivem de migalhas.

Não menos invasores são os artistas da Axé Music e de outros gêneros que, neste período junino, adaptam o repertório para se encaixar nos festejos, tudo em nome do vil metal. Essa concorrência desleal afasta os verdadeiros representantes do forró tradicional, em favor de nomes já consolidados no mercado, que nada acrescentam à identidade cultural da festa.

Secretários, bajuladores e até parte do público convencem prefeitos de que vale mais contratar artistas de renome do que preservar a cultura nordestina. O resultado é uma transformação absurda, pouco se ouve forró e muito se escuta sobre o dinheiro que corre por baixo dos panos nessas contratações. Enquanto isso, quadrilhas juninas, sanfoneiros e artesãos locais, que são a verdadeira alma da festa, ficam à margem.

Outras festas populares brasileiras mostram que é possível preservar a tradição mesmo diante da pressão comercial. O Carnaval de Olinda mantém o frevo e o maracatu como protagonistas. O Bumba Meu Boi no Maranhão segue firme como expressão cultural autêntica. Por que o São João, tão rico e tão representativo, precisa se render ao mercado e perder sua essência?

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